Por Paulo Lima, Managing Director da FROMM Embalagem
Durante muitos anos, a automação industrial concentrou-se sobretudo no processo produtivo. Automatizaram-se máquinas, linhas de enchimento, transformação e controlo, enquanto no final da linha continuavam muitas vezes pessoas a fechar caixas, a movimentá-las, a envolvê-las, a cintá-las ou a colocá-las manualmente sobre paletes. Esse cenário está a mudar. O fim-de-linha deixou de ser uma etapa secundária. É precisamente aí que muitas empresas enfrentam hoje problemas de produtividade, disponibilidade de mão-de-obra, ergonomia e continuidade operacional. A questão já não é apenas saber se é possível automatizar, mas perceber onde faz sentido fazê-lo e como introduzir automação sem criar nova complexidade.
Um dos últimos redutos do trabalho manual
A paletização é um bom exemplo. Nas grandes unidades industriais existem há muito sistemas automáticos, mas uma parte significativa da indústria trabalha com séries curtas, produções especiais, alterações frequentes de produto ou diferentes formatos de caixas que nem sempre justificam um grande sistema dedicado. Nestas operações, continua muitas vezes a existir uma pessoa no final da linha a retirar caixas e a colocá-las sobre uma palete. É uma tarefa repetitiva e fisicamente exigente, que implica levantamento de cargas, rotação do corpo e construção de paletes a alturas consideráveis. Ao mesmo tempo, tornou-se mais difícil encontrar e reter pessoas para este tipo de função. Por isso, a discussão sobre robótica no fim-de-linha não deve começar pela substituição de trabalhadores, mas por uma questão simples: faz sentido manter pessoas em tarefas altamente repetitivas e desgastantes quando existem tecnologias capazes de as executar?
Automatizar não pode significar complicar
Muitas empresas continuam a associar a robotização a projetos complexos, demorados e caros. Em determinadas aplicações essa complexidade é inevitável, mas estão também a surgir soluções mais compactas, flexíveis e pré-configuradas. É aqui que a lógica plug-and-play ganha importância. Não elimina a necessidade de análise técnica, mas permite que uma parte relevante da engenharia esteja previamente resolvida, reduzindo aquilo que tem de ser desenvolvido especificamente em cada instalação. Esta evolução é especialmente importante para pequenas e médias empresas e para operações em que um sistema tradicional de paletização seria difícil de justificar.
O robot não é o projeto
Um dos erros mais frequentes é concentrar toda a atenção no braço robótico. O robot é apenas uma parte da solução. É necessário considerar a alimentação e o posicionamento das caixas, o gripper, os pesos e dimensões dos produtos, o padrão de paletização, o tipo de palete, a cadência, a altura final e as condições de segurança. Se uma caixa chegar sempre ao mesmo ponto e na mesma posição, o movimento do robot torna-se previsível. Se isso não acontecer, aumenta a necessidade de sensores, programação, visão artificial ou outros sistemas de compensação. É muitas vezes nestes elementos menos visíveis que um projeto ganha ou perde complexidade.
StackBot um exemplo desta nova abordagem
Foi com esta filosofia que a Betelgeus Robotics desenvolveu o StackBot, solução atualmente representada em Portugal pela FROMM. A Betelgeus acumulou mais de 30 anos de experiência em automação de fim-de-linha. O StackBot nasceu dessa experiência no chão de fábrica com um objetivo concreto: automatizar a paletização manual sem transformar a solução num projeto excessivamente complexo. A gama inclui os StackBot 20 e StackBot 30, com capacidades de carga útil até 20 e 30 kg, respetivamente. A solução chega pré-configurada e pré-calibrada e, nas aplicações mais simples, pode ser instalada em menos de uma hora, dependendo das condições da linha e da aplicação.
Um dos elementos centrais é o StackFeeder, que recebe e posiciona a caixa sempre no ponto correto para recolha. Integra ainda um Feed Gate que controla as caixas provenientes do transportador a montante, evitando pressão sobre a caixa que está a ser manipulada. É uma resposta simples a um problema essencial: criar condições previsíveis para que o robot execute repetidamente a mesma operação. É esta abordagem que distingue a simples instalação de um braço robótico de uma solução industrial pensada para ser integrada.
O papel do integrador torna-se ainda mais importante
Quanto mais acessível se torna a robótica, maior é o risco de pensar que basta escolher um equipamento e instalá-lo. Na realidade, a primeira pergunta deve ser outra: esta operação deve ser automatizada? Para responder é necessário analisar a cadência, o peso e as dimensões das caixas, os padrões de paletização, o espaço disponível, os transportadores existentes e as mudanças de formato.
É por isso que, na FROMM, dedicamos uma parte importante do trabalho ao diagnóstico antes de apresentar uma proposta. Em automação de fim-de-linha, um detalhe aparentemente pequeno pode condicionar todo o projeto.
A relação da FROMM com a Betelgeus reforça esta abordagem. As duas empresas trabalham em conjunto desde 1998, com a Betelgeus a integrar equipamentos FROMM nas suas soluções de fim-de-linha. A representação do StackBot em Portugal surge como uma evolução natural dessa relação técnica e industrial.
Da máquina isolada ao fim-de-linha integrado
A evolução da paletização faz parte de uma transformação mais ampla. O fim-de-linha está a deixar de ser visto como uma sucessão de equipamentos independentes. O verdadeiro ganho surge quando estas operações são analisadas como um sistema: o produto deve chegar corretamente acondicionado ao cliente, a carga deve ser estável, o consumo de materiais deve ser controlado, a linha não deve criar gargalos e os operadores devem trabalhar em segurança. Por isso, acreditamos que o futuro do fim-de-linha estará cada vez menos na venda isolada de máquinas e cada vez mais na construção de soluções integradas.
Automatizar para utilizar melhor as pessoas
Automatizar uma tarefa manual não significa necessariamente eliminar um posto de trabalho. Em muitas empresas, o problema atual é precisamente a falta de pessoas para determinadas funções. E, quando essas pessoas estão disponíveis, faz sentido perguntar se a melhor utilização do seu conhecimento e capacidade é passarem um turno inteiro a movimentar caixas. Um operador pode supervisionar uma célula, controlar qualidade, preparar produtos, gerir mudanças de formato ou acompanhar vários equipamentos. A tecnologia deve retirar esforço onde esse esforço não acrescenta valor e libertar as pessoas para tarefas onde capacidade de decisão, conhecimento e flexibilidade são realmente necessários.
O futuro será mais flexível
A automação industrial não está apenas a tornar-se mais sofisticada. Está também a tornar-se mais acessível. Soluções compactas, programação mais intuitiva, robots colaborativos e sistemas pré-configurados estão a permitir automatizar operações que, há poucos anos, dificilmente justificariam um projeto de robótica. Isso representa uma oportunidade importante para a indústria portuguesa, particularmente para pequenas e médias empresas.
O desafio não é robotizar tudo, mas identificar os processos onde a automação gera valor, escolher soluções proporcionais à operação e garantir que tecnologia, produto, pessoas e processo funcionam em conjunto. No fim-de-linha, essa transformação já começou.